
Siga-nos nas Redes Sociais

Saga das Almas
QUARTO ESCURO

Sofria n’alma a rejeição que só crescia
Vinda do filho que era tudo o que restou
Seu disfarçado enfado, em dor a consumia
Calando nela a antiga voz que o ninou
A mãe idosa busca o filho de outrora
O filho a vê e mal esconde o mau sentir
A mãe reclama a atenção, o amor implora
Ele a ignora, e se irrita e refletir:
“O andar cansado melhor é que mais não ande
O odor da idade, melhor é não mais sentir
A mente frágil, melhor é que fique longe
Levando junto o nojo que já brota em mim”
O olhar gelado dele a fez envergonhar-se
E o velho quarto ela tratou de procurar
A mágoa em gotas desligou a claridade
Desesperança fez a porta se fechar
No quarto escuro o corpo verga, a mulher chora
E as mãos pequenas cobrem o rosto no sofrer
Na solidão, geme seus ais que ninguém nota
E a fronte em neve lembra o que quer esquecer
Na casa, o filho põe ao colo o próprio filho
E segue os dias que lhe levam de roldão
Trabalha e volta, é bom pai, é bom marido
E esquece “o resto” sem temor, sem compaixão
No quarto escuro, o abandono é companhia
Na casa clara, o egoísmo só sorri
A ausência longa não faz falta à família
Aquela porta deixa longe o mal sentir
“A dor que cansa, é melhor que se recolha
A vida fraca, melhor é que já se vá
Tolas lembranças, melhor é fiquem caladas
Atrás da porta, para não importunar”
No quarto escuro, dói-lhe o corpo mal dormido
Que busca o chão por derradeiro companheiro
Procura o escuro canto, de ventre servindo
E o corpo fraco se contorce em desespero
Na praça, a vida, livre, passa, fria, louca
Na rua a pressa vai e vem, sem perceber
O quarto escuro onde a dor guarida busca,
Qual morte em vida que não sabe mais viver
Na casa clara, o filho ri-se, o neto corre
Enquanto os pais lhe dão completa atenção
No quarto escuro o choro para, o corpo morre
Liberta a mãe de sua longa solidão.
(Samia Awada)


Licença de uso Pixabay, de compartilhamento e uso de imagens.
Palavras-chave:
poesia sobre dramas familiares. rejeição, abandono
